terça-feira, maio 27, 2008

O REGRESSO E A MUDANÇA

VOLTEI E MUDEI O ESTABELECIMENTO PARA AQUI!!! Passem lá e terão mais informações... até breve caros amigos.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Pausa...

...só mais uns dias e por motivos de força maior estarei ausente. Uma semanita...ou pouco mais e voltarei a publicar aqui os nossos artistas!

Até breve e obrigado a todos os que custumam visitar este blog!

quarta-feira, janeiro 09, 2008

As vozes de "Zeca" - 4 (O último...pelo menos para já)

Para encerrar para já esta “saga” de tributos a Zeca Afonso, e começar a apontar baterias para outras artes e outros artistas, vou terminar com aquele que é para mim um dos poemas “maiores” da obra de José Afonso.

O poema “que amor não me engana”, já foi cantado pela voz de Eugénia Melo e Castro, Dulce Pontes, entre outra(o)s.
No passado fim de semana, vi com prazer no programa Operação Triunfo uma interpretação desta canção muito conseguida e bastante sentida por parte de Paula Oliveira (cantora de jazz e professora de canto no programa) em dueto com um jovem de 17 anos concorrente na O.T.Confesso que não sou fã da voz de Paula Oliveira, mas é bom ver musica e poesia desta qualidade em horário nobre na TV, num programa feito com jovens, que tem muito publico jovem. Para mim é serviço publico e só beneficia a nossa cultura.
No vídeo o que realmente interessa está mais para o fim...foi o que se arranjou!



Que amor não me engana

Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia

E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia

José Afonso

quinta-feira, dezembro 27, 2007

As vozes de "Zeca" - 3 (Negro esperança)

O 3º post da série dedicada aos artistas que têm cantado, e honrado a obra de José Afonso vai mais uma vez ao encontro de uma extraordinária voz feminina.
Aproveitando também a maré de sucesso e reconhecimento tanto a nível nacional como internacional, é justo, falar de Mariza.

Da voz…que dizer? Mas quando a juntar a isso parece transparecer humildade, generosidade, simpatia e simplicidade para com o público, imprensa, é de louvar que estejamos tão bem representados na voz de uma pessoa que parece cultivar essas qualidades.

O ar jovem e bem disposto de alguém cuja imagem é já esteticamente forte, é salutar na música portuguesa em geral e muito particularmente no fado. Menino do Bairro Negro, é uma composição belíssima de Zeca Afonso, com uma mensagem de esperança às mais humildes existências. Numa versão transformada em fado, não será melhor que o original…diferente é sem dúvida, e bonita com toda a certeza.





Menino Do Bairro Negro
Mariza

Composição: José Afonso



Olha o sol que vai nascendo,
Anda ver o mar,
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Menino sem condição
Irmão de todos os nus
Tira os olhos do chão,
Vem ver a luz

Menino do mal trajar
Um novo dia lá vem
Só quem souber cantar
Virá também

Negro, Bairro negro,
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção

Olha o sol
Que vai nascendo...
Se até dá gosto cantar
Se toda a terra sorri
Quem te não há-de amar
Menino a ti?

Se não é fúria a razão
Se toda a gente quiser
Um dia hás-de aprender
Haja o que houver

Negro bairro negro,
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção
Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar

sábado, dezembro 08, 2007

As vozes de "zeca" - 2

Se de uma composição genial de José Afonso juntar-mos a qualidade musical dos Madredeus e a voz de Tereza Salgueiro resulta algo parecido com isto:



Maio Maduro Maio

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul

Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andavaA
o longe a varar

Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar

Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu

José Afonso

sexta-feira, novembro 30, 2007

As vozes de "zeca" - 1

Falar da cultura musical Portuguesa do séc. xx obriga-nos a referir como um dos seus maiores marcos a obra de José Afonso.

Uma das coisas que mais me irrita é o fundamentalismo político de pessoas que, qual asno de palas nos olhos, se recusa a ver o óbvio. “Zeca” é muito mais que politica ou cantigas revolucionárias.

“Zeca” nunca deixou de assumir os ideais de esquerda, e o seu espírito revolucionário, infelizmente ser honesto e assumir de peito aberto a luta pelo que se acredita nem sempre compensa neste país. Mas a obra de José Afonso é poesia, é fado de Coimbra, são baladas, composições musicais belíssimas tanto ao nível do tradicionalismo musical português como na abertura de novas portas para a fuga ao marasmo criativo mostrando o caminho para uma vertente inovadora e futurista que muitas das suas obras representaram para a época.
Hoje, cada vez mais o pudor se desvanece e os “novos” artistas cantam “José Afonso”, dando uma nova dimensão à sua obra. O Grito de revolta foi dado pelos “Filhos da Madrugada”, depois já outros seguiram esse caminho. Cristina Branco foi a mais recente, gravando um disco em que interpreta temas de “José Afonso” com novos arranjos e sonoridades.
Ao logo de uma série de posts vou dar a conhecer, ou apenas relembrar alguns dos melhores exemplos da “renovada” obra de José Afonso, porque o que é bom jamais será passado, e nem tudo o que é velho é para guardar na arca das recordações.

Para começar Cristina branco interpretando “redondo vocábulo”, arrisco a dizer que Zeca ficaria orgulhoso ao ouvir esta versão irrepreensivelmente cantada por tão bela voz:





Era um redondo vocábulo

Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa

quinta-feira, novembro 15, 2007

Acordar Tarde

Um dos poetas portugueses contemporâneos de maior valor, deu-se pelo pseudónimo Al Berto. Nascido em 1948 deixou-nos em 1997. Foi a partir de 1971 que se dedicou exclusivamente á literatura tendo deixado uma obra de grande valor para a cultura e língua portuguesa.
AQUI é possível consultar parte da sua obra e a sua biografia.

Um dos mais belos poemas de Al Berto foi, em 2004, interpretado por Jorge palma e incluído no seu álbum “Norte”. Um dos melhores discos, na minha opinião da carreira de Jorge Palma de onde se pode destacar uma qualidade instrumental notável e onde sobressai entre outros a contribuição do contrabaixista português Carlos Bica, um dos músicos nacionais mais requisitados e conceituados no estrangeiro.
“Acordar Tarde” é o nome do poema que virou canção pelas mãos (e voz) de:
Piano e Voz - Jorge Palma
Contrabaixo - Carlos Bica
Clarinetes baixo e si bemol – Paulo Gaspar
Guitarra eléctrica – Marco Nunes
Baixo eléctrico – Miguel Barros
Bateria – André Hollanda
Secção de cordas dirigida por António Augusto Gaspar


A junção desta boa gente deu numa música que começa na melancolia, para explodir num poderoso instrumental e acabar de novo no lento embalo dos sentidos, num sussurrar dos últimos versos.

Este é o Vídeo que fiz para aqui colocar. Espero que gostem mas o melhor é mesmo ir lendo o poema que lhes deixo logo de seguida.


Acordar tarde

tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

A propósito de Jorge Palma… na próxima terça-feira dia 20 todos ao coliseu! Eu vou lá estar eheheh e roam-se de inveja os que não forem porque tenho a sensação que vai ser daqueles concertos que dificilmente se esquecem!

segunda-feira, novembro 05, 2007

Letras

"Trocaria a memória de todos os beijos que me deste por um único beijo teu. E trocaria até esse beijo pela suspeita de uma saudade tua, de um único beijo que te dei." Miguel Esteves Cardoso


Nem só de prémios Nobel, de Lobos Antunes e demais notáveis são feitas as nossas letras.
Nem só de romances e romancistas, de poemas e poetas se faz a literatura.
O escritor português do qual li mais obras chama-se Miguel Esteves Cardoso, não os romances que escreveu, mas sim os seus livros de crónicas.
“A causa das coisas”, “As minhas aventuras na republica portuguesa”, e “O último volume” entre alguns outros são exemplos da genialidade do autor.
Da análise brilhante da tragédia até à gargalhada vinda do humor corrosivo e irreverente é um pequeno passo.
Miguel Esteves Cardoso é um crítico, escritor e destacado jornalista português, licenciou-se em Estudos Políticos e Doutorou-se em Filosofia Política.

Desde o arrebatador "Elogio ao Amor" até às hilariantes explicações dos mais peculiares hábitos do cidadão português, Esteves Cardoso mostra compreender como poucos o país e o seu povo. Ensina-nos que a tomada de consciência dos nossos defeitos e virtudes passa em primeira instância pela capacidade de rir de nós próprios…de levar o exagero ao ponto do ridículo e mesmo assim ser sábio nas palavras ditas.

Talvez o seu lado polémico e excentrico acentuado por aparições em programas televisivos como "raios e curiscos" ou "a noite da má língua", ou a participação ao lado de Paulo Portas no jornal "O Independente" tenham desviado a atenção de muitos da sua verdadeira capacida literária...mas os livros estão à venda logo ainda não é tarde para quem quiser descobrir um grande autor!

"(...) Quando se é feliz muito novo, a única obsessão que se tem é aguentar a coisa. Vive-se ansiosamente com a desconfiança, quase certeza da coisa piorar. O pior é que as pessoas que se habituaram a serem felizes não sabem sofrer. Sofrem o triplo de quem já sofreu.É injusto mas é assim. No amor é igual. Vive-se à espera dele e, quando finalmente se alcança, vive-se com medo de perdê-lo. E depois de perdê-lo, já não há mais nada para esperar. Continuar é como morrer. As pessoas haviam de encontrar o grande amor das suas vidas só quando fossem velhas. É sempre melhor viver antes da felicidade do que depois dela." Miguel Esteves Cardoso

terça-feira, outubro 02, 2007

Venham mais 20....


A brincar a brincar, já lá vão 20 anos de estrada…

Tudo começou em Tomar na quinta do sr. Guilherme, cuja alcunha era “Bill”…o resto é história.

Com pezinhos de lã, os Quinta do Bill vingaram pela seriedade e pela qualidade musical.
Comemoram por estes dias 20 anos de carreira. Nunca se “venderam” ao som comercial das modas que ao longo de muitos anos de carreira fizeram a tentação de muitos outros.
A qualidade instrumental, bem como a diversidade de instrumentos que enchem o palco quando os quinta do bill tocam, é para mim a chave do sucesso. A sonoridade da banda é diferenciada, por vezes um pouco “country”, ou talvez com algo de “celta”, tribal, certamente com muito rock…mas tradicional também! Alguém consegue definir melhor?

O primeiro grande impulso mediático foi dado com os “filhos da nação”, musica essa que está definitiva e irremediavelmente “doada” para a eternidade ao cancioneiro da musica portuguesa.

Mas se formos contar, os sucessos não se contam facilmente pelos dedos…"No trilho do sol" , "Se te amo" , A única das amantes, voa, Sra. Maria do olival, entre outras são todas elas canções que foram ficando de forma a que todos nós as saibamos no mínimo trautear.

A entrega da banda à cultura popular foi sempre inquestionável, "Menino" é um exemplo de uma musica do tradicional cancioneiro popular “reciclada” pela quinta do bill que lhe deu uma energia contagiante!

Mais recentemente surgiu, quem sabe, o disco mais conseguido da banda “A Hora das Colmeias”, as letras…a poesia que é cantada saiu das mãos de gente como Tim, Pedro Abronhosa, José Luís Peixoto, Adolfo Luxúria Canibal, João Afonso entre outros…
A música, O Mundo para ti, escrita por José Luís Peixoto, é arrebatadora na força do refrão impulsionado pela tremenda força do “coro” de violinos sempre em crescendo…


O MUNDO PARA TI
José Luís Peixoto

Procuro o teu olhar urgente
Como ternura devagar
Como inocência de repente
Distingo a lua do luar

Caminho e corro sem saber
Toda a distância da vida
Quero encontra-te para aprender
Labirintos sem saída

Oh, eu hoje acredito que o mundo
Nasceu para tiOh, eu hoje acredito que o mundo
Existe para ti

Tantas planícies na terra
para te dedicar
Os horizontes e o céu
Para te oferecer
Todo o tamanho do mar
Montanhas altas para te dar

Oh, eu hoje acredito que o mundo
Nasceu para ti
Oh, eu hoje acredito que o mundo
Existe para ti
O mundo para ti

Só para ti

Vem, espero por ti
Tenho o mundo para te oferecer
Oh, eu hoje acredito que o mundo

Nasceu para ti
O mundo para ti

Só para ti

http://www.myspace.com/quintadobill

terça-feira, setembro 18, 2007

Umpletrue




Que me perdoem os que estão habituados a que aqui apareçam artistas consagrados de reconhecida obra, mas desta vez, e porque se um familiar vosso tivesse uma banda fariam o mesmo (…ou não) vou tomar a liberdade de publicitar um projecto em cuja qualidade eu acredito convictamente mas que só agora começa a estar disponível ao grande publico.

Os Umpletrue nasceram em finais de 2003 na Marinha Grande assumindo a sonoridade Electro / Pop.
Foram finalistas do Termómetro Unplugged, vencedores do Festival Música Moderna Palmela, e têm actuado um pouco por todo o país, assim como merecido o destaque no programa da antena 3 ”Portugália” de Henrique Amaro.
Em finais de 2004, lançaram em nome próprio o seu primeiro EP "Pills". Em 2006, lançaram também em nome próprio e em estilo de EP, "Fab Fight" que lhes valeu, entre outros concertos, uma deslocação a Budapeste, na Hungria para participar no LSC Festival
Na plateia encontravam-se Adolfo Luxúria Canibal e António Rafael que se renderam à banda e, como responsáveis da editora Cobra Discos (Braga), resolveram editar Umpletrue.No inicio de 2007, assinaram então com a Cobra Discos e o resultado é a edição oficial de "Fab Fight" lançado no mercado no dia 13 de Setembro de 2007. (texto parcialmente roubado daqui )





NO MYSPACE DOS UMPLETRUE PODEM OUVIR E SABER MAIS http://www.myspace.com/umpletrueband.

AQUI FICA O CALENDÁRIO DO TOUR DE "FAB FIGHT"

sexta-feira, agosto 31, 2007

Porto Cantado

Rui Veloso é sem margem para discussões um dos nomes maiores da música portuguesa, ao longo de décadas de carreira foi coleccionando um extenso rol de canções que reservaram o seu lugar na eternidade da história da nossa música.

Das canções mais populares que todos sabemos pelo menos trautear, passando por algumas das mais belas composições a que nenhum coração fica indiferente.
É justo, no entanto, dividir o mérito do seu sucesso com Carlos Tê, genial escritor de canções que mantém uma forte relação de cumplicidade com Rui Veloso.

Porto Sentido é para mim uma canção cuja proximidade da perfeição faz arrepiar a pele de quem, mesmo que por um só dia, contemplou ao vivo a cidade do Porto. Mais que uma canção, é o mais perfeito retrato cantado que podemos contemplar de tão belo lugar. Os sons e as palavras pintam na tela da paisagem Portuense o retrato perfeito da melancolia que mais parece inventada de uma cidade que respira o fulgor da vida na alegria da sua gente, na encantada sombra das suas ruas e no d’ouro que é o rio que no Porto cresce para o mar no auge da sua beleza.
Vale a pena atravessar a ponte, para no outro lado superar o choque do jeito fechado e sombrio e descobrir todo o brilho de uma cidade quem sabe receber que chega de novo, e que consegue roubar um pouco do coração de todos os que um dia se aventuraram a apaixonar-se por ela.


sábado, agosto 04, 2007

O tempero da cor

Se da cultura portuguesa se trata neste espaço, esquecemos por vezes em boa verdade que um país do tamanho de nosso é pequeno para sózinho ser dono de tanta riqueza. .
É pequeno o país porque o império português não se esgota nem acaba com a descolonização, nem tão pouco em livros poeirentos de História mais ou menos remota.
A nossa cultura, chega-nos ainda hoje com o cheiro doce de cacau brasileiro, ou com o calor de uma dança africana temperada com as melhores especiarias orientais.
Da voz dos nossos artistas chega tudo isto, numa mistura de sabores e odores, de danças e esperanças que nos lembram que sós não teríamos tudo o que temos nem seremos metade do que podemos ser.
No abraçar de cores distantes no espaço mas próximas no coração está a chave para mais momentos com este…



…nascido do poema de Alda Lara:

Mãe Negra

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendonas folhas do cajueiro
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?
Quem ouve agora as histórias que costumava contar?
Mãe-Negra não sabe nada
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo Mãe-Negra!
Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias que costumavas contar
Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada.
(Alda Lara, 1951)

segunda-feira, julho 23, 2007

Almada Negreiros



"Namoro" Almada Negreiros



panorama

Estorva-me a terra por causa do sonho
estorva-me o sonho por causa da terra
eu ando na guerra do sonho com a terra.
Senhores empregados do mundo
tenham santa paciência
vale mais a vida do que a existência.

Almada Negreiros

José Sobral de Almada Negreiros, artista plástico, dramaturgo, ensaísta, romancista e poeta. (à direita "auto-retrato" de Almada Negreiros e em baixo à esquerda, retrato de Fernando Pessoa)
Nasceu em S. Tomé em 1893 tendo falecido em Lisboa em 1970.
Será sempre um dos nomes maiores da nossa cultura, por ser um artista multifacetado mas sobretudo pela genialidade imposta em todas as suas criações.

Fez parte da revista Orpheu, tornando-se juntamente com Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro entre outros um dos nomes essenciais do modernismo.

Almada Negreiros mostrou estar sempre à frente do seu tempo, sem papas na língua não hesitou em ser polémico e caustico na crítica sempre com a arte como arma de arremesso. Disto é o Manifesto anti-Dantas talvez o mais conhecido exemplo.
Aqui numa interpreação fantástica pela voz de outro grande nome, Mário Viegas, um dos melhores actores e encenadores portugueses de sempre, declamava a poesia como poucos:


segunda-feira, junho 25, 2007

Preto no branco

Já neste blog fiz referência a Antóneo Gedeão, mas é um terrivelmente injusto reduzir a sua obra à "Pedra Filosofal".
A obra de Gedeão não se resume ao poema “Pedra Filosofal”, nem à “calçada de Carriche” nem tão pouco se reduz à poesia.

António Gedeão , é mais que um poeta, é um homem da ciência, provido de uma sensibilidade e um humanismo por vezes comovente.

Pseudónimo de Rómulo de Carvalho, António Gedeão "licenciou-se em Ciências Físico-Químicas pela Universidade do Porto em 1931, traduziu como ninguém, a ciência para os leigos, desvendando segredos científicos com a mesma simplicidade com que os exemplificava.

Afirmando-se como um dos mais brilhantes e talentosos criadores lusófonos do século XX, professor, pedagogo e historiador da ciência , demonstro um espírito extremamente marcado pelo cepticismo e pela ironia, sempre presentes nos seus poemas."
Há poucos dias um amigo de comprovado bom gosto mostrou-me um video que é um autêntico tesouro de um poema de A. Gedeão cantado por Manuel freire.
Lágrima de Preta é um poema comovente na sua simplicidade, é um hino à luta anti-racista que Gedeão publicou num tempo em a guerra colonial e o regime abafavam o evoluir dos ideais de tolerância e de irmandade entre os povos.
Neste poema Gedeão usa a poesia para explicar cientificamente que afinal a lágrima de um preta é tão cristalina como outra qualquer.

Será este poema parte obrigatório no programa de ensino da nossa língua nas escolas? Se não é, devia ser. Pois a formação moral deve ser a base de todo o conhecimento.
Aqui interpretado por Manuel Freire:




Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.


Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.


Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.


Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.


Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:


nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.


Lágrima de preta
(António Gedeão)
Ps: Uma palavra de agradecimento à 100 SENTIDOS por ter votado neste blog para as 7 marvilhas da blogosfera... não posso deixar de o considerar um exagero pois limito-me a publicar obra feita por quem realmente merece admiração.

terça-feira, junho 19, 2007

Julio Pereira

O novo disco foi baptizado de "GEOGRAFIAS" , e está disponível para todos o decobrirmos. Por isso é uma pequena viagem no tempo que sugiro.

As notícias recentes do regresso aos albums de Julio Pereira enquanto autor e interprete fizeram-me reavivar algumas memórias de infância.
Memórias das noites junto à lareira a ver tv em que o meu avô me ensinava que o figura singular de cabelo comprido e “barbicha” a que eu chamava o homem do cavaquinho era Julio Pereira. O “o homem dos 7 instrumentos” como o meu gostava de lhe chamar.


Das guitarras, à viola braguesa, passando pelo célebre cavaquino e pelo badolin muitos são os intrumentos que se fazem arte nas mãos de Julio Pereira.
Ao longo de mais de 30 anos de carreira este notável instrumentista lançou 15 discos, produziu 30, e com instrumentista participou em mais de 50!


Dos inumeros artistas com os quais colaborou podemos destacar: Fausto, Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, J. Barata Moura, Jorge Palma, José Mário Branco, Janita Salomé, Pete Seeger, João Afonso,Eugénia Melo e Castro, Sara Tavares…. Etc.
Muitas vezes não o saber, algumas das melodies intrumentais que sabemos trautear de trás pra frente são da autoria de Julio Pereira.

Um exemplo disso é esta musica, oiçam pelo menos até meio e diagam lá se conheçem ou não!


terça-feira, junho 12, 2007

Linda Martini

Simplesmente porque é uma banda portuguesa, que canta em português as letras de canções rock.
Rock verdadeiro...sem pop, sem pretenção comercial na maneira de compor e tocar.
Os Linda Martini, são uma lufada de ar fresco na musica nacional.
Têm uma qualidade intrumental invejável, da qual vive principalmente algumas das suas músicas.

Simplesmente porque muita gente começa a gostar, e eu não sou excepção, aqui está o principal êxito da banda até à data. Amor combate é uma uma musica de letra bem conseguida ainda que simples e capaz de provocar grandes descargas de energia de quem gosta do rock num estilo mais "old school"

Mas não se deixem enganar, há mais, em registos mais ou menos calmos, canções como: "dá-me a tua melhor faca", "Lição de voo nº 1", "cronógrafo" " a severa" ou "estuque" são, entre outras, motivo suficiente para parr uns minutos a ouvir umas guitarradas bem esgalhadas.





Linda Martini - Amor Combate

Eu quero estar lá
Quando tu tiveres de olhar para trás.
Sempre quero ouvir
Aquilo que guardaste para dizer no fim.
Eu não te posso dar
Aquilo que nunca tive de ti,
Mas não te vou negar a visita às ruínas que deixaste em mim.
Se o nosso amor é um combate
Então que ganhe a melhor parte.
O chão que pisas sou eu.
O nosso amor morreu quem o matou fui eu.

segunda-feira, maio 28, 2007

Diferença

Por vezes a expressão faz-se de cultos muito particulares a determinado artista, banda, obra etc

E os cultos nascem da diferença, da coragem para remar contra a maré, de um pouco de loucura e da coragem em continuar mesmo sobre a sensura dos dedos ignorantes apontados, como os dedos que há muitos anos atrás apontavam para os leprosos como monstros.

Que vive no lado mais negro da realidade, quem dele faz arte e nele se mantém, é tido por muitos como seguidor do demónio, demente... ou depedente...

Fundados em 1984 os MÃO MORTA deram o seu concerto de estreia em janeiro de 1985.

As performances e o carisma de Adolfo Luxúria Canibal fizeram nascer, desde os primeiros momentos, um culto muito especial à volta da banda: «Uma garganta funda que liberta bílis às golfadas, que espanca os espectadores com as palavras, que os excita e irrita, que conta histórias de sexo, de crime e de repressão» (Blitz 110, 09/12/86, António Pires acerca de Adolfo Luxúria Canibal no RRV). E o culto foi crescendo. Em 1986 ganharam o Prémio de Originalidade do III Concurso de Música Moderna do extinto Rock Rendez-Vouz.

Desde 1984 até hoje os Mão Morta têm levado a poesia à musica de uma forma nunca antes vista.
Com Poemas embalados por musicas desde as mais melancólicas até ao rock puro e duro tanto em albuns de originais, versões de musicas de outras bandas ("mãe" dos xutos&pontapés é um dos exemplos mais conhecidos) poemas de autoria própria e de outros. Tudo isto tem enriquecido a obra de uma banda que nunca deixou de agitar as mentes mais inquietas de quem, em Portugal não se satisfaz com o "normal".



Floresta em sonho
Mão Morta

Esta noite atravessava uma floresta a sonhar
Ela estava cheia de horror. Seguindo a cartilha
Os olhos vazios, que nenhum olhar compreende
Os bichos erguiam-se entre árvore e árvore
Esculpidos em pedra pelo gelo. Da linha
De abetos, ao meu encontro, através da neve
Vinha estalando, é isto um sonho ou são os meus olhos que avêem,
Uma criança de armadura, coiraça e viseira
A lança no braço. Cuja ponta faísca
No negro dos abetos, que bebe o sol
O último vestígio do dia uma seta de ouro
Atrás da floresta do sonho, que me faz sinal de morrer
E num piscar de olho, entre choque e dor,
O meu rosto olhou-me: a criança era eu.

sexta-feira, maio 11, 2007

Vozes...apenas

Estou de regresso às lides neste blog para falar de um quinteto que já há algum tempo tinha lugar reservado neste espaço.


Os VOZES DA RÁDIO são um quinteto vocal formado em 1991 na cidade doPorto.

A primeira musica que ouvi vinda destas cinco magníficas vozes foi “os índios da meia-praia” de Zeca Afonso, resultante da participação no projecto de homenagem ao mesmo intitulado “filhos da madrugada”.

No seu ínicio o grupo portuense valia-se única e exclusivamente da voz para construir toda a melodia das canções, fazendo das vozes mais do que um meio para transmitir as palavras, verdadeiros instrumentos musicais. Tal facto pode ser verificado NESTA versão do original dos GNR “Dunas” .
Mais tarde introduziram algum instrumental nos seus trabalhos não deixando jamais que se descaracterize a essência dos Vozes da Rádio, o canto a cappella.
Mais do que cantores são verdadeiros músicos, tanto na intrepertação de originais como no arranjo de velhos êxitos da nossa musica.

O encanto do grupo não se acaba nas musicas que canta, passa também pelo sentido de humor apurado tanto em palco como fora dele que pode ser verificado por todos neste blog: http://vozesdaradio.blogspot.com/
Belas palavras e excelentes vozes, em melodias que nos embalam com uma suavidade dificilmente igualável.

É dificil imaginar a quantidade de horas de ensaios necessárias para atingir tamanha sincronização e afinação, mas quando o resultado é aquele que se vê...

E que tal este exemplo para atestar o que acabo de dizer? Verão que vale a pena!






Tu lês em mim
Como num Livro Aberto
Descobres Sempre
Quem é o Bandidooo

Se há um Mistério
Tu Andas por Perto
Com essa Coisa do Sexto Sentido

Naqueles Dias
Que Eu Estou de Apetites
Encontro Eco
No teu Galanteio

Trocamos TUDO
Até ficarmos Quites
Marcamos X's
Na Coluna do Meio

Se às vezes fico macambúzio
Com a Expressão de Peixinho Amarelo
Levas-me ao Mar
Que tensDentro de um Búzio
E eu Brinco
Nas Ondas do teu Cabelo

Tu Lês em Mim
Como num Livro Aberto
Tens a Mania de me Pressentir

Eu tenho o Saldo
Sempre a Descoberto
Até Pareço
Que Falo a Dormir

Quem dera um Dia
Ter uma Fezada
Ganhar um pouco
Desse Teu Condão

E pela Noite
Sem Tu dares por Nada
Pôr o teu Sonho
Na Palma da Mão

Se às vezes fico Macambúzio
Com a Expressão de Peixinho Amarelo
Levas-me ao MarQue tens
Dentro de um Búzio
E eu Brinco
Nas Ondas do teu Cabelo


Ps: ...no dia de te dar "aquele beijo especial" esta prenda é para ti "menina aluada", que me ensinaste a gostar mais e melhor destes 5 senhores e da sua música. Obrigado

domingo, abril 22, 2007

Despedida

As universidades são, ou pelo menos deveriam ser, fonte de cultura.

Uma das vertentes artísticas da cultura académica são as tunas.

As tunas são dos movimentos musicais mais ricos, em qualidade e em diversidade que temos em Portugal. Sendo também uma bandeira do país nos muitos festivais internacionais de tunas. As tunas cantam e tocam o fado de Coimbra, serenatas, baladas, versões de musicas já existentes, originais, musica alegre, musica humorística, entre outros estilos que se vão adaptando ao toque dos estudantes.

Hoje, à entrada da minha última Semana Académica enquanto estudante, coloco ao dispor de quem queira ouvir uma música que emociona qualquer um que como eu vê próxima a despedida, com a saudade já a espreita nas recordações que ficaram para trás nos últimos 4 anos.





Adeus minha universidade

Chegou a hora da partida

Eu já sinto a triste saudade

Quando envergo capa e batina

Choro sobre esta minha capa

Negra a noite e o sentimento

Quando trino minha guitarra

E canto este meu lamento

E minhas fitas voam ao vento

Levam as minhas recordações

E são as negras capas na rua

Com serenatas comovem a lua

Choras a minha despedida

Perdem-se lágrimas de dor

Perdem-se gotas de vida

E minhas fitas voam ao vento

Levam as minhas recordações

E são as negras capas na rua

Com serenatas comovem a lua

E assim me dispeço até daqui a uma semana, pois não terei possibilidade de publicar nada nos próximos dias!

terça-feira, abril 17, 2007

Será apenas treta?


O país não tem sabido agradecer aos que o fazem rir. Fazer rir representando um papel é, segundo os entendidos, mais difícil que fazer chorar.


Dos actores portugueses, aquele que mais admiro, e que melhores momentos me tem proporcionado é o actor e encenador José Pedro Gomes.


Na sua ligação ao trabalho de Herman José, desde os tempos do “caxuxo” do Casino Royal, até à Herman Enciclopédia ( que foi para mim o melhor programa de humor da TV portuguesa), entre outros, José Pedro Gomes tem feito rir muita gente com a sua genialidade.

No teatro, fez parceria com António Feio naquela que foi a mais brilhante interpretação que me recordo ter visto. Aconteceu em “O que diz Molero” em que durante 3 horas de diálogo e longos monólogos também, com uma expressão física que só por si enche o palco somos levados a viajar pelo riso, pela aventura, pelo amor, pela emoção, pelo medo….pelo mundo afinal! Como se estivéssemos a ler uma banda desenhada fantástica.
É com António Feio, também ele alvo de grande admiração da minha parte que tem partilhado muitos sucessos no teatro e na TV.

O merecido êxito mediático surgiu a galope nas palavras de uma conversa da treta.
Sem cenário, sem adereços, apenas com conversa simples de humor inteligente, embora muitas vezes camuflado pelos traços pouco intelectuais dos personagens.
Quer se queira quer não, é um feito tremendo e ao alcance apenas dos grandes artistas pôr uns país a rir de norte a sul com recorrendo a tão escassos trunfos.

A cultura não está apenas nos “livros”. A palavra cultura define as “características de um povo”, e cada um de nós reconhece um pouco do Toni e do ZéZé. São duas caricaturas brilhantes, e hilariantes de um Portugal que não é cinzento ao contrário do que muitos dizem. É repleto de matéria prima para que o humor seja uma arte por mais simples e popular que seja a forma como é apresentado.





Ps: Vejam o "Filme da treta"....os extras do DVD também! E lavem a alma com um sorRISO.